sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A Rosa antes do botão





Por Marco Gemaque

Esta é a valsa do nosso Johann Sebastian Bach brasileiro, que tinha nome de passarinho, ou Alfredo da Rocha Vianna Filho: o Pixinguinha. Porém, passarinho tão raro que ainda está longe de ser descoberto, talvez ninguém, nem biólogo, arqueólogo ou escafandrista... nem astrônomo conseguirão descobrir uma canção antes da nota. Pixinguinha é assim, o imprevisível choro antes das lágrimas, antes da emoção como Bach, a estrela antes da grande explosão. Ou seja, a Rosa antes do botão.

Interpretação de André Carvalho - www.duolequeharmonico.com.br - Rosa Pixiguninha
 Composição: Pixinguinha e Otávio de Souza 

Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito teu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral. Oh, alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza
Perdão se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Desenredo

Por toda terra que passo

Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego
Eu me enredo
Nas tranças do teu desejo
O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo
O olhar que assusta
Anda morto
O olhar que avisa
Anda aceso
Mas quando eu chego
Eu me perco
Nas tramas do teu segredo
Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe
A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego
Eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo
Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe

domingo, 8 de dezembro de 2013

Partido do Determinismo Eleitoral Brasileiro (PDEB)

                                                                                                                         
Por Marco Gemaque

            Nos cinco últimos mandatos presidenciais, tivemos dois estilos políticos no Brasil: o gerencial (PSDB) e depois o messiânico e assistencialista (PT). O PSDB, representado por FHC, não enfatizou o assistencialismo e o PT, representado por Lula, acelerou o assistencialismo e mistificou a figura de líder salvador da pátria por ser pobre e semianalfabeto (a cara do Brasil). Agora, só um partido ou uma figura pode parar com o PT.
             Alguém entre o messiânico e o gerencial; alguém entre o pobre e o rico; alguém entre o socialdemocrata e social liberal...
            Alguém que não seja sociólogo ou que tenha lecionado na Universidade de Paris?; alguém que aprendeu tudo só escutando e que veio da pobreza extrema?; ou alguém que seja mulher e tenha lutado contra a ditadura?
             Nenhum desses; porém, um misto disso tudo e mais o ineditismo promissor ou o determinismo promissor eleitoral dentro da nossa democracia fragilizada pelo analfabetismo político: o de ser o primeiro índio no poder máximo da República? Não. O de ser o primeiro deficiente no poder máximo da República ? Não. O de ser o primeiro homossexual no poder máximo da República ? Ainda não. O de ser o brasileiro mais rico do mundo no poder máximo da República ? Não, Eike Batista “especulou-se” em pedacinhos. 

"Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo" de Salvador Dalí


            E nós, brasileiros geopolíticos, observando o nascimento do presidente novo, ratificaremos nossa condição determinista, a parte mais virulenta do status quo, e, por conseguinte, quem sabe, pariremos mais um presidente determinista-político: poliglota, juiz, pobre, rico, inteligente e – com mais uma marca indelével do Determinismo Eleitoral Brasileiro – negro.
             Em 2000 não sei quando, o “partido” de Joaquim Barbosa: PDEB (Partido do Determinismo Eleitoral Brasileiro) cujo principal slogan recomendo: “Vote com a cabeça”.
            Aliás, votamos com os olhos, votamos com a cor da pele, votamos com o jeito de andar e se vestir, votamos com o fígado (Raiva), votamos com o intestino grosso (Fazer merda), votamos com o coração (Amor), votamos com as mãos, votamos (ou chutamos) com os pés... Votamos com todas as partes do corpo; porém, não votamos – com a única parte do corpo que deveríamos votar – com a cabeça.
             Votar com a cabeça é privilegiar todas as partes do corpo. Sem excluir ninguém: nem podre, nem rico; nem preto, nem branco; nem homo, nem heterossexual, etc. Não podemos votar em alguém só por ser pobre. Só por ser negro. Só por ser gay. Ou seja, só por ser o primeiro... e o Brasil não ri por primeiro e nem por último. 


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A Fome Como Método Interminável Dentro Da Gente



Por Marco Gemaque 
Para Drummond (As sem-razões do amor),
João Cabral de Melo Neto (Os Três Mal-Amados),
Lília Diniz (SEM DÓ, NEM PIEDADE)
e Marcos Tavares (ANDRO CÉU).



Ou se morre
De fome, ou se morre
De amor, ou de fome de amor.

Porém, perigosamente o mais, o mais
Gostoso.....dos amores de morte: a paixão
-de uma fome reincidente:..........todo desejo

A fome que é prima....da....morte...e...da vida
E da morte pecadora. Ainda  que a neguemos,
O desejo continua, nua e crua, a cada...instante

-De gula ou de paixão; De amor....ou...de fome
Se vive, se  morre,......se mata pela boca(...)
Pois, a volúpia é um desejo de morte:...

Tudo que   é  sólido              Tudo que é  se   dissolve
e queima  como  um fogo corre
como um rio em    sangue
com  um    cocheiro

sem   ouvidos
sem     olfato
sem    visão
sem      fala.

Ou se morre
de    g u l a;
ou se morre
de       amor,
a  p a i x ã o
me  espremeu
em finas fatias
pra  gula cortante
de     meus   olhos
eretos: voo  águia  ...

fá-lo ereto de rapina.
D e s e j o   enfurecido
De viver a dor da fome

que comeu meu nome,
minha    identidade,
minha  vontade,
e  meu ser.

Bon Apetit !

                                                                  

2ª Menção Honrosa no XXXVI Concurso Literário Felippe D’Oliveira, promovido pela Prefeitura de Santa Maria através da Secretaria de Município da Cultura na edição de 2013.




quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Lado Bom da Vida




Por Marco Gemaque

O filme se passa na era do iPod e notebook com memória flash, quero dizer, a nossa era; porém Pat e Tiffany se comunicam, e se apaixonam, com a nossa antiga e velha e romântica carta, escrita em um computador, ainda assim é carta. 

Eis a grande sacada do filme ou sua subjacência morfológica, refletida na confusão, bem bolada e original, da música escolhida para a competição: um pot-pourri - cuja mensagem quer dizer que somos todos normais num mundo ensandecido - e há espaços para todos: para o Latin soul de Don't You Worry 'bout A Thing (Stevie Wonder), para o Garage punk de Fell in Love with a Girl do The White Stripes, para o Jazz de Maria do The Dave Brubeck Quartet, para os passos de Fred Aster, da Valsa, do Rock and Roll, do Mambo, Rip Rop, samba, etc. E de uma nova forma de dança: Tiffany fazendo de Pat uma barra de Pole Dance. Moral da história, o Lado Bom Da Vida ou o Guia Para Um Final Feliz, é misturar tudo isso. 

Não poderia esquecer de Ernest Hemingway, que foi jogado janela afora, ou contrariá-lo-ei: “Se as duas pessoas se amam uma a outra, pode sim haver final feliz”.