Eu sou açaizinho. Quero dizer o meu apelido. Meu nome é Marco Antônio Furtado Gemaque. Açaizinho vem do meu pai que era vendedor de açaí e, logo, desde que me conheço como gente é assim: “Açaizinho, passa a bola!”, “Corre açaizinho!” Açaizinho, vem aqui moleque!. Já nem sei se sou Marco. Gosto muito de ler. O meu primeiro livro que li, chama-se “Eram os deuses astronautas?” Eu tinha 13 anos e encontrei-o na biblioteca público do meu Estado: Pará. Gostei tanto desse livro que furtei da biblioteca. Quase eu transformei-me em um ladrão de livros, porque furtei outros e mais outros, ou seja, a leitura se transformou em um vício. Furtei “O Pequeno Príncipe” e Dom Quixote, uma coletânea de contos que tinha “O homem da cabeça de papelão” e outros. Na verdade esse vício deveras atrapalhou a minha vida, pois antes dos dezoito anos já tinha lido muito coisa. Tomos e tomos de livros. E, assim, eu esqueci do convencional. Aquela coisa, fazer vestibular e se formar... mulher, filho, salário ...
Cheguei aos vinte anos e precisava trabalhar. E abri os classificados e estava lá: “operador de xérox” E pensei: “legal esse emprego, as pessoas tiram copias de livros e posso emprestá-los”. Porém descobri que não havia tempo pra ler nada e ninguém emprestava nada. Estava frustrado com meu emprego. Descobri que a universidade do meu Estado abrira, na época, uma licitação pra contratar uma empresa de segurança. Foi quando eu fiz um curso técnico pra vigilância. E precisava desse emprego na universidade do Estado, apesar do perigoso iminente da profissão, porém teria mais tempo pra leitura. Não é que eu consegui o emprego aos 21 anos? O meu chefe disse que eu iria vigiar a biblioteca da universidade e que eu iria ficar dentro dela das 23:00 às 7:00 da manhã. Foi nesta biblioteca, apesar de pequena, que encontrei “As maravilhas da matemática” de Malba Tahan. Não o furtei, pois já tinha absorvido nos livros a importância da abdicação dos instintos primários. Freud, por exemplo, me ensinou que “a única maneira de abicarmos dos instintos primários era através da leitura” E os meus instintos primários, pelo menos alguns deles, estavam dominados. Neste interstício, dez anos como vigilante da leitura, fui um bom Quixote e comecei a escrever, ou seja, tentar criar outros livros, dando impulso à espécie ‘celulose’ para impulsionar o espírito da espécie humana.
Ganhei prêmios literários, mas isto era segredo no meu trabalho. Em 2007, inscrevi-me num concurso de teatro e poesia em Campos no Rio de Janeiro e estava entre 30 finalistas que iriam disputar um prêmio de 11 000 mil reais. Fui o único paraense até hoje. É difícil, visto a especificidade do texto, poesia falada ou interpretada. Eu me inscrevi como autor e como ator. Cheguei à empresa que eu trabalho e solicitei uma troca de serviço pra eu participar, defender o meu Estado, num concurso nacional de literatura e teatro. O meu chefe zombou de mim e disse que não liberava funcionário dele pra “sacanagem”. O nome do texto é “A vida engarrafada”. Ainda bem que eu não disse o nome do poema que iria defender, senão seria humilhado mais ainda.
Depois de um mês, o meu supervisor chegou ao meu posto de serviço, a biblioteca, e levou tudo que eu tinha de pertences, pois ele recebera uma ordem de levar coisas que atrapalhassem a segurança do patrimônio. Levou um livro de contos que eu estava desenvolvendo no meu posto e algumas partituras e poesias. Consegui recuperar alguns contos do livro, sendo que os poemas foram perdidos, pois na época não tinha computador.
Ano passado encontrei um dos poemas: “Grávida d’vinha”. Este poema (prosa) ganhou o segundo lugar num concurso nacional de poesia no Rio Grande do Sul, que é patrocinado pela FENAVINHO.
Fui retirado do meu posto de serviço ou minha biblioteca e fui jogado num píer abandonado da Eletronorte em 2008: sem luz ou só com a luz do luar. Uma espécie de castigo e prerrogativa da empresa, a fim que eu entregasse o lugar, visto que descobriram “o escritor-vigia e sem luz, não tem razão de continuar na empresa, logo entregará o lugar.” Neste píer eu tive a ideia de escrever o conto “Ao mar livro” que estou revisando. Meu Deus, “a criatividade não cessa nunca, nem nos é tirada!”
O emprego não agüentou, pois com a facilidade pra escrever, fiz uma ocorrência e adornei-a um pouco: o suficiente pra me mandarem pra rua e, assim, acabar com o meu sofrimento. Hoje estou desempregado e ponto de se despejado. Tentarei o serviço público.. Fiz alguns concursos, porém a indisciplina da mão liberta de um poeta ainda reflete na minha personalidade. Por exemplo, este ano prestei um concurso para o Ministério da Ciência e Tecnologia (Museu Emílio Goeldi) e fiquei em quarto lugar e iria pra final prática. E tinha muita chance por ter experiência na área de editoração. Simplesmente eu dormi e passei da hora da prova. Domingo fiz a prova da ANTAQ, Agencia Nacional de Transportes Aquaviários, concorrendo ao cargo de Técnico em Regulamentação, foi um choque entre a disciplina (a prova) e estro indisciplinado do artista. Foi um desastre. Apesar da atividade de organizar uma música ou um conto ou poema ser extremamente articulado. Arte está com os pés “fincados” em algum lugar que não é na terra, deve ser por isso da não predisposição do artista ao método (convencional).
Temos dois tipos de heróis pra nós espelharmos: o anti-herói e o herói. Este é metódico e organizado e aquele é genial e desorganizado, pois tem o niilismo como inspiração. Por exemplo, o Ayrton Sena era o perfeito herói que representa muito bem a genialidade e a organização. Ele não fazia uma corrida antes de caminhar pela pista na qual ele iria competir. Ayrton não era adepto do “amar como se fosse a última vez” ou “carpe diem”. Tudo era feito com cautela. O gênio das pistas era o contrário, por exemplo, de muitos gênios da música, pintura, letras, etc. Estes tinham no niilismo, autodestruição, como fermento pra criatividade.
Hoje, pra passar em um concurso, pra vender arte, pra casar, pra interpersonalidade... temos que ser um Ayrton Sena em grande parte. Este herói dum arquétipo inexistente, principalmente, pra nos brasileiros montados sobre o alicerce da cultura ocidental, pois só lembramos de demiurgos como Cazuza, de Renato Russo, Elis Regina, Joplin, etc. Devemos admirá-los ou admirar a arte, não os seguir com exemplo logístico pra organização social. O “alea jact est” (“seja o que Deus quiser...”) e “carpe diem”
( “aproveite o dia”) fizeram um bem muito grande pra minha criatividade, e muito mal pra minha vida social. Destarte, atingiu o financeira, amorosa e familiar. Eis alguém querendo muito mudar. Mudar com honestidade e altruísmo. Mudar com honestidade e espírito empreendedor. Mudar com honestidade e criatividade. Mudar com honestidade e simplicidade. Mudar com honestidade e honestidade.
valeu!